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Voltamos
a apresentar... Episódio
9 Não é só Chespirito que se emociona ao lembrar Ramón Valdés. Todo o elenco
se recorda dele como um grande amigo, um irmão ou até mesmo um pai. De
personalidade ambiguamente forte e simples, sabia cativar com seu jeito
humilde e, principalmente, com seu bom humor. Para incorporar o Seu Madruga,
ele só precisava de uma calça jeans, uma camisa preta, um par de tênis
branco e um chapéu. Estava pronto, ou seja, era basicamente ele mesmo!
Chegava atrasado nas gravações, falha que compensava com seu talento primoroso.
Interpretava tão naturalmente que é difícil separarmos o ator do personagem.
Dono de um tempo de comédia raríssimo e certeiro, era capaz de fazer os
companheiros de trabalho (elenco e equipe técnica) se acabarem de rir
durante as gravações. É difícil dizer com qual dos atores o Seu Madruga se dava melhor. Todos falam tão bem dele e lembram-no com tanta saudade... Carlos Villagrán, o Quico, disse uma vez: — Nós tínhamos uma amizade tão forte, uma cumplicidade que não se pode calcular. Éramos muito unidos, de tal forma que ninguém pode entender. Até hoje não parei para pensar na sua morte. Para mim seria o fim. São palavras fortíssimas, de grande apelo emocional, beirando o delírio. Observem a carga dramática do depoimento: como é grave o sofrimento de Carlos Villagrán ao se lembrar do amigo! Amigo que o acompanhou quando deixou para trás o elenco de “Chaves” e a Televisa. Amigo que chegou a atuar só com ele em outros seriados. O curioso aqui é que Carlos, ao deixar o programa de Chespirito, em outubro
de 1978, saiu brigado com todos os seus ex-companheiros, à exceção, obviamente,
de Ramón. Este, no entanto, retirou-se do elenco, poucos meses depois,
para ir trabalhar com Carlos em outro seriado, porém sem brigar com Chespirito
e os demais companheiros. Tanto que, três anos depois, voltou para o elenco
de Bolaños. Contudo, ficou só mais alguns meses. Em recente entrevista,
Esteban Valdés revelou que um dos motivos que levou seu pai a deixar o
programa definitivamente foi sua insatisfação com as intervenções cada
vez mais graves de Florinda Meza em todas as questões que envolviam o
programa. “Assim como no seriado, na vida real também era como um pai para mim. Ele me beijava na testa e me chamava de Chiquinha (Chilindrina) mesmo.” – lembra María Antonieta de las Nieves, a Chiquinha, que realmente poderia ser filha de Seu Madruga, já que a diferença de idade entre os dois é de 25 anos. “Quando ele morreu, a Chiquinha chorou diariamente por um bom tempo”, recorda-se. María Antonieta e Ramón Valdés atuaram juntos desde o final dos anos 60, ao lado de Chespirito. No mesmo dia da morte de seu “papito lindo”, Chiquinha fez um show para milhares de pessoas em homenagem ao ator. Terminado o espetáculo, não pôde conter o choro enquanto cantava uma música especial que ela mesma escreveu para ele. E quem não se lembra do triste depoimento de Edgar Vivar (Sr. Barriga) para a equipe de Sônia Abrão no programa Falando Francamente, sobre a morte de seu amigo? Edgar não conteve as lágrimas. Considerou o fato como o pior episódio de que pode se lembrar de toda a sua carreira. Edgar regressava de uma viagem à Guatemala quando, enquanto ainda descia do avião, recebeu a notícia trágica. As pessoas gritavam: “Senhor Barriga, o Seu Madruga morreu! O Seu Madruga morreu!”. Foi um choque muito grande, conta o ator, os olhos cheios d’água. — Havia muitíssima gente no enterro. Gente do meio artístico e também o povo; todos foram se despedir de Don Ramón. Quando o enterraram, as pessoas começaram a aplaudir... A fala de Edgar Vivar é interrompida por um silêncio doloroso e interminável. Quando esteve no Brasil e foi entrevistado por Sônia Abrão, Edgar lembrou, a pedido dos fãs, os bons tempos com o amigo. Na maioria das vezes, eles saíam juntos após as gravações, já que moravam muito perto. “Às vezes eu dirigia, outras vezes era ele. Eu freqüentava a casa dele e adorava seus filhos. Ele também freqüentava a minha casa. Éramos muito amigos”. Contudo, possivelmente quem mais sofreu com a morte do ídolo Ramón Valdés foi sua inseparável amiga Angelines Fernández, a Dona Clotilde, que também já faleceu. Poucos sabem, mas Angelines e Ramón já se conheciam tempos antes dos programas de Chespirito, pois eram renomados atores do cinema mexicano dos anos 50 e 60. Aliás, foi Ramón quem apresentou a atriz a Chespirito. Ela estava interessada em integrar o elenco de Bolaños e foi falar com Ramón, perguntando se Chespirito não tinha algum papel para ela. Foi assim que ingressou nas séries de Chespirito e nunca mais saiu. — A morte do Don Ramón foi uma tragédia para a minha família. Minha mãe nunca mais foi a mesma, entrou em depressão e morreu poucos anos depois – disse Paloma Fernández, filha única da atriz que ficou reconhecida mundialmente como a Bruxa do 71, em entrevista a uma revista venezuelana. — Ela descuidou da saúde, passou a fumar ainda mais. Nunca aceitou a morte do Don Ramón. Eram muito ligados, se amavam muito – completa Paloma. Angelines Fernández morreu em março de 1994, do mesmo mal que matou Ramón Valdés: o fumo. Os dois fumavam descontroladamente. Conta-se que, no enterro de Ramón, Angelines foi a última a ir embora do cemitério. Ela ficou ao lado do túmulo o dia inteiro, chorando, inconformada. Dizem também que ela não parava de falar, como se estivesse conversando com Ramón. Mas Angelines continuou a gravar os programas de Chespirito até o ano
de sua morte. Comparando a fase antiga com a recente, é assustadora a
mudança física por que passou a atriz. Antes magérrima, engordou consideravelmente,
além de estar visivelmente abatida nos programas mais novos. De fato,
a morte de Ramón mexeu muito com ela e, como disse sua filha, a atriz
nunca mais foi a mesma. Morreu seis anos depois, de câncer no pulmão. Ramón alcançara fama nacional no cinema, mas conquistou fama mundial com o personagem Seu Madruga da série de Roberto Bolaños. Seu último trabalho na TV foi ao lado de Carlos Villagrán, na série ‘Ah, que Kiko!”. Os fãs também sentem saudade... Nosso querido Seu Madruga! Tão amado, tão vivo! Vivo, sim, porque sua imagem está eternizada nos seriados. Como disse em certa ocasião seu dublador no Brasil, Carlos Seidl: “Parece que ele não morreu, pois sua imagem está ali, viva, e ainda nos faz rir.” É isso mesmo. Seu Madruga vive para sempre em nossas memórias e em nossas casas quando ligamos a TV para assistir ao ‘Chaves’. Ele vive cada vez que sorrimos por sua causa. Cada vez que nos faz rir! Porque quando nos faz rir, nos faz viver melhor. E se nos faz viver melhor, é porque também está vivo! Seu Madruga é imortal. (Estamos apresentando... CHespecial 25 anos) |